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SAÚDE DA MULHER

OVÁRIOS  POLICÍSTICOS

       Antes de tudo, um pouco de história:

       Em 1935, dois médicos de Chicago – Dr. Irving Stein e Dr. Michael Leventhal – descreveram um conjunto de sinais e sintomas que afetava igualmente sete de suas pacientes, quatro das quais eram obesas. Todas apresentavam amenorréia (ausência de menstruação), hirsutismo (excesso de pêlos na face, tórax, abdome e coxas), infertilidade e ovários aumentados de volume à pneumopelvigrafia (um desconfortável exame radiológico que, utilizado naquela época, tornou-se obsoleto com o advento da ultra-sonografia). As pacientes foram submetidas à cirurgia em que uma parte de seus ovários foi retirada para ser estudada ao microscópio. Os exames apenas revelaram a existência de múltiplos cistos foliculares abaixo da superfície ovariana. Surpreendentemente, depois de operadas, elas passaram a ter menstruações regulares e duas conseguiram engravidar. Em 1949, o Dr. Joseph (Joe) Vincent Meigs, professor de Ginecologia da Universidade de Harvard, batizou a síndrome dos ovários policísticos (SOP) com os nomes daqueles pesquisadores: Stein e Leventhal. Naquele tempo, em que muito pouco se sabia sobre a fisiologia da ovulação, o tratamento cirúrgico - retirada de um terço de ambos os ovários – passou a ser considerado como o mais apropriado para restituir a regularidade das menstruações – e a fertilidade - das mulheres que se enquadravam naquele diagnóstico (uma conduta que, atualmente, sofre inúmeras críticas e restrições).

       Nos últimos 70 anos, os critérios para o diagnóstico da SOP passaram por duas revisões de caráter internacional: a primeira em 1990, na cidade de Bethesda (Estados Unidos) e a segunda, em maio de 2003, em Roterdam (Holanda). Nesta última reunião, os maiores expoentes da endocrinologia ginecológica chegaram à conclusão de que a ultra-sonografia, isoladamente, não faz o diagnóstico da síndrome dos ovários policísticos, pois 25% das pacientes com este achado ultra-sonográfico menstruam (ovulam) regularmente e não apresentam sinais clínicos de hiperandrogenismo (excesso de pêlos, acne, etc.); sendo lamentável, portanto, que estas mulheres sintam-se ameaçadas pelo fantasma da infertilidade, ou pior ainda, que se submetam a tratamentos absolutamente desnecessários, tendo por base apenas o resultado deste exame.

       Para que uma paciente seja considerada como portadora da síndrome de Stein e Leventhal é necessário que o quadro clínico preencha pelo menos dois dos seguintes critérios: 1- presença de 12 (doze) ou mais cistos foliculares, com menos de 9 mm de diâmetro, em ambos os ovários; 2 – hiperandrogenismo (aumento dos hormônios masculinos, manifestado pelo excesso de pêlos, pele oleosa e acne) e 3 - sinais de anovulação (menstruação esporádica ou ausente), devendo ser descartados outros distúrbios hormonais.

       Dependendo das circunstâncias – idade, desejo de engravidar ou não, etc. -, o tratamento a ser instituído terá por objetivo regularizar as menstruações, reverter os sinais de hiperandrogenismo, corrigir a anovulação (possibilitar a gravidez) e prevenir outros problemas que – no longo prazo – estão associados a esta síndrome (diabetes, doenças cardiovasculares e câncer de endométrio). É importante ressaltar que o controle do peso (tratamento da obesidade) pode, por si só, reverter algumas das alterações hormonais observadas na SOP.

       A ovulação - fenômeno central do ciclo menstrual e pré-requisito para a fertilidade - está sob a influência de dezenas de fatores que mantêm, entre si, uma complexa e delicada relação de reciprocidade. Desde os tempos de Stein e Leventhal, acumulamos uma enorme bagagem de conhecimento sobre os mecanismos neuroendócrinos e moleculares (receptores celulares) que regem o funcionamento ovariano. Entretanto, quanto mais nos aprofundamos nas pesquisas sobre esse tema, quanto mais avançamos na direção de sua completa compreensão, maior é a certeza de que ainda temos muito que aprender.

Dr. Carlos Antônio da Costa

Ginecologista e Obstetra

CRMSC 9758 – TEGO 035/79

www.drcarlos.med.br/

gocomponto@yahoo.com.br

 

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